MARY ST. CROSS
Na Suécia, um culto satanista sequestrou Lucia, uma mulher qualquer, para utilizá-la em um ritual profano: forjar, dentro de seu ventre, o Anticristo. Submetida à violência do ritual, Lucia sentiu seu corpo ser consumido pela dor enquanto uma criatura crescia sobrenaturalmente em seu útero, comprimindo em minutos uma gestação que deveria durar nove meses.Mas o ritual não saiu como planejado. Ainda no ventre, a criança despertou um poder que sequer seus criadores compreendiam. Influenciada por aquela força, Lucia rompeu as correntes que a prendiam ao altar e fugiu do culto, carregando consigo a criança que eles haviam criado para ser a própria encarnação do mal.Desesperada, chegou a uma igreja e implorou pela ajuda do Padre Nihil, um exorcista. Ali, deu a luz a uma menina, repetindo entre lágrimas que aquela criança era filha do Diabo.Nihil sentiu algo estranho durante o parto. Uma presença sobrenatural, antiga e poderosa. Mas bastou olhar para a recém-nascida para que suas suspeitas fossem silenciadas. Era apenas uma bebê. Pele pálida, cabelos vividamente ruivos e um pequeno sorriso que, aos olhos dele, parecia quase angelical.Lucia, marcada pelo trauma, acabou internada em uma clínica psiquiátrica. A criança foi enviada ao Heliga Korsets Barnhem — Orfanato da Santa Cruz — e recebeu o nome de Mary.Mary cresceu gentil, obediente e carinhosa. Ainda assim, parecia carregar consigo uma inexplicável onda de caos e azar. Onde ela ia, acidentes aconteciam, coisas quebravam, planos fracassavam. Logo, todos evitavam sua companhia. Exceto Nihil, que sempre a visitava.Até que, certo dia, algumas meninas do orfanato foram longe demais com o bullying. Mary perdeu o controle. Seus olhos tornaram-se vermelhos como fogo, as paredes estremeceram e, diante de todos, as cruzes da capela se inverteram.Assustada com aquilo tanto quanto os outros, Mary foi acolhida por Nihil, que a convenceu de que aquilo não era uma maldição, mas um teste divino. A partir de então, passou a viver com ele.Nihil ensinou-lhe tudo o que sabia sobre exorcismo e Mary começou a acompanhá-lo em suas missões. Foi assim que descobriu algo ainda mais estranho: os demônios a obedeciam.Mary possuía um domínio natural sobre criaturas infernais que nenhum exorcista compreendia. Sua reputação cresceu, assim como o desconforto da Igreja Católica diante de uma jovem mulher ocupando um lugar que muitos acreditavam pertencer somente aos homens.Para Mary, aquilo era um dom de Deus. Até descobrir a verdade sobre o próprio nascimento.Depois de ouvir rumores dentro da igreja, passou a investigar secretamente o paradeiro de Lucia. Quando finalmente encontrou a mulher na clínica psiquiátrica, bastou sua presença para fazê-la entrar em completo surto, repetindo as mesmas palavras que havia dito no dia em que a menina nascera.“Ela é filha do Diabo!”Mary voltou para confrontar Nihil. Mas não teve tempo. O culto que a criara finalmente a havia encontrado.Os homens invadiram a casa dispostos a levá-la à força. E quando um disparo atingiu Nihil, Mary não foi capaz de lutar contra aquilo que existia dentro dela. Seus olhos arderam em vermelho e chamas começaram a surgir de dentro de seu próprio corpo. O fogo infernal consumiu a casa e carbonizou aqueles que foram buscá-la.Quando tudo terminou, segurou Nihil nos braços, assustada e em prantos. E este, mesmo ferido mortalmente, encontrou forças para tranquilizá-la como sempre.“Sua origem não te define. Suas escolhas, sim. Você tem um bom coração, Mary. Você é boa.”Foram as últimas palavras do homem.Desde então, Mary St. Cross carrega consigo o fardo de uma criatura que jamais pediu para ser. Uma filha do inferno que aprendeu a exorcizar demônios. Uma suposta Anticristo que acredita em Deus.Cheia de dúvidas e culpa, partiu da Suécia, levando consigo sua única companhia: Napoleão, o bode de estimação.